ÓRBITA DF

Descanso desrespeitado, jornadas de até 12 horas e pressão psicológica: trabalhadores denunciam irregularidades em complexo da Amazon no DF

Prazo judicial para adequação das jornadas terminou nesta quinta-feira (8); denúncias incluem falta de pausas, dores físicas, assédio e convocação para trabalhar durante as folgas.

Caixas da Amazon, em imagem de arquivo — Foto: REUTERS/Eduardo Munoz/Arquivo
Caixas da Amazon, em imagem de arquivo — Foto: REUTERS/Eduardo Munoz/Arquivo

Trabalhadores do complexo logístico da Amazon em Santa Maria, no Distrito Federal, denunciam jornadas exaustivas, falta de pausas adequadas, problemas nas condições de descanso e pressão psicológica no ambiente de trabalho. As queixas fazem parte de uma ação do Ministério Público do Trabalho no Distrito Federal e Tocantins (MPT-DF/TO), que levou a Justiça a determinar mudanças na organização das atividades e nos horários dos funcionários.

O prazo para que a Amazon e a Ceva Logistics, responsável pela operação do centro logístico, adequassem as jornadas terminou nesta quinta-feira (8). Segundo relatos reunidos na investigação, porém, as mudanças ainda não teriam sido implementadas.

Em março de 2026, durante uma fiscalização do MPT, foram contabilizados 1.398 trabalhadores no complexo. Desse total, 485 eram contratados diretamente pela Ceva Logistics e outros 913 atuavam por meio de empresas de trabalho temporário.

Trabalhadores relatam até 12 horas em pé

Entre as principais denúncias estão jornadas prolongadas, movimentos repetitivos e atividades que exigem o transporte de volumes de até 22 quilos. Segundo o Ministério Público do Trabalho, há relatos de funcionários que permaneciam em pé por períodos de 11 a 12 horas, com poucas oportunidades para descansar.

As queixas também apontam dificuldades para acessar os locais de alimentação e repouso. Um dos trabalhadores afirmou que o intervalo para lanche, previsto em apenas 15 minutos, acaba sendo reduzido pelo tempo necessário para chegar ao espaço destinado à pausa.

“Na teoria, temos apenas 15 minutos de intervalo. Porém, até chegar no local de descanso, já consumiu quase o tempo todo”, relatou um funcionário ao denunciar as condições de trabalho.

O mesmo trabalhador afirmou que o intervalo para a refeição principal também é prejudicado pela distância até o refeitório, obrigando os empregados a comer rapidamente para retornar ao galpão.

Outro ponto levantado nas denúncias é a falta de assentos. Conforme os relatos encaminhados ao MPT, alguns funcionários não teriam locais adequados para sentar durante a jornada e seriam advertidos até mesmo quando tentassem se apoiar nas prateleiras.

Dores físicas e relatos de mal-estar

As condições de trabalho descritas na investigação incluem queixas frequentes de dores no corpo, especialmente entre os funcionários responsáveis por coletar produtos e movimentar mercadorias.

Segundo um dos relatos, os trabalhadores precisam continuar se movimentando mesmo quando não há demanda imediata, realizando tarefas para manter o ritmo de atividade. A denúncia afirma que empregados sofrem com dores constantes e sentem que suas reclamações não são ouvidas.

Também há relatos de episódios de mal-estar associados à alimentação oferecida no refeitório. De acordo com uma das denúncias, funcionários chegaram a organizar um abaixo-assinado para pedir mudanças, mas não teriam percebido alterações na situação.

O Ministério Público recebeu ainda reclamações relacionadas ao calor intenso no interior do armazém e a possíveis irregularidades no pagamento do adicional de periculosidade. Segundo os relatos, o benefício seria pago a poucos funcionários, apesar da existência de áreas destinadas a inflamáveis e aerossóis, consideradas de risco de incêndio.

As alegações fazem parte dos elementos reunidos na investigação e não representam, por si só, uma conclusão definitiva sobre cada ocorrência denunciada.

Pressão para trabalhar durante as folgas

Outra denúncia apresentada ao Ministério Público diz respeito à convocação de funcionários para trabalhar nos dias destinados ao descanso semanal.

Segundo os relatos, gestores diretos pressionariam empregados a aceitar jornadas extras durante as folgas. Em algumas situações, os trabalhadores chegariam a cumprir quatro dias de trabalho, com turnos de até 12 horas.

As queixas também descrevem situações de constrangimento para quem não pode atender às convocações.

“Quando algum empregado manifesta indisponibilidade, a situação é tratada como falta de comprometimento ou de profissionalismo”, afirma um dos relatos encaminhados ao MPT.

A investigação inclui ainda denúncias de assédio moral e sexual no ambiente de trabalho.

Justiça determina mudanças na jornada

Em decisão assinada em 17 de setembro, o juiz Claudinei da Silva Campos, da Vara do Trabalho do Gama, determinou que as empresas adotassem medidas para adequar as condições de trabalho no complexo logístico.

Entre as obrigações estabelecidas estão:

  • Garantir pausas de dez minutos a cada 90 minutos de trabalho em pé;
  • Limitar a jornada a oito horas diárias e 44 horas semanais;
  • Assegurar o descanso semanal após, no máximo, seis dias consecutivos de trabalho;
  • Impedir a convocação de funcionários para trabalhar durante as folgas;
  • Garantir uma hora de intervalo para refeição e 15 minutos para lanche, contabilizados somente após os trabalhadores passarem pelas filas dos detectores de metais e pelo registro de ponto.

O prazo para cumprimento das determinações terminou nesta quinta-feira (8).

Empresas divergem sobre responsabilidade pelas escalas

Durante o processo, a Ceva Logistics argumentou que as escalas praticadas no complexo seguem um acordo firmado com a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Movimentação de Mercadoria em Geral (Conamm).

O juiz, no entanto, entendeu que existe no Distrito Federal um sindicato representativo da categoria que já negociava com a empresa. Por esse motivo, considerou que o acordo apresentado pela defesa não poderia fundamentar as escalas adotadas.

Na decisão, o magistrado destacou que os documentos do processo indicavam que o Sindicato dos Trabalhadores na Movimentação de Mercadorias em Geral do Distrito Federal (SINTRAMB/DF) havia encaminhado propostas e mantinha tratativas com a empregadora.

A Amazon, por sua vez, alegou no processo que a operação do centro logístico foi terceirizada e que cabe à Ceva definir as jornadas de trabalho. A empresa negou ter autorizado as escalas questionadas.

O Ministério Público do Trabalho sustenta, entretanto, que a Amazon participa da gestão do centro logístico e influencia as condições em que os serviços são executados.

Investigação também envolve outro complexo logístico

Segundo o MPT, parte das denúncias aponta semelhanças entre as jornadas praticadas em Santa Maria e as de outro complexo logístico da Amazon, localizado nas proximidades da rodovia DF-290 e operado por uma empresa diferente.

A unidade anterior já havia sido alvo de uma decisão judicial favorável aos trabalhadores no início de 2026. De acordo com os relatos reunidos na nova ação, funcionários dispensados do outro centro estariam sendo absorvidos, em alguns casos, pelo complexo de Santa Maria, inaugurado no ano passado.

As denúncias levantam questionamentos sobre a continuidade das escalas de trabalho mesmo após a intervenção judicial na outra unidade.

Até o encerramento do prazo determinado pela Justiça, os relatos apresentados ao Ministério Público indicavam que as condições denunciadas ainda não haviam sido integralmente corrigidas.

O caso segue relacionado à apuração das condições de trabalho e ao cumprimento das obrigações impostas judicialmente às empresas responsáveis pela operação do complexo logístico.

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