Amostras coletadas no Pacífico ultrapassaram 100°C após passarem por processos de secagem e trituração; estudo aponta reação química ligada à presença de ferro, enxofre e oxigênio.

Duas rochas coletadas no fundo do oceano Pacífico entraram em combustão espontânea durante procedimentos realizados em laboratório. As amostras atingiram temperaturas superiores a 100°C após serem secas e trituradas, provocando a oxidação completa dos minerais que as compunham originalmente.
O fenômeno foi descrito em um estudo publicado em 28 de setembro na revista científica Scientific Reports. A pesquisa foi liderada pela oceanógrafa Amy Gartman, do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), e identificou características minerais que ajudam a explicar o aquecimento inesperado.
Rochas foram coletadas a milhares de metros de profundidade
As amostras foram retiradas da região submarina de Escanaba Trough, próxima à costa oeste dos Estados Unidos, entre os estados de Oregon e Califórnia. A área apresenta fontes hidrotermais que liberam água aquecida pelo interior da Terra e contribuem para a formação de depósitos minerais ricos em metais, como cobre, zinco e ferro.
Durante a expedição, os pesquisadores utilizaram um veículo operado remotamente para recolher 57 amostras em quatro áreas do fundo oceânico.
A combustão, no entanto, só foi observada posteriormente, quando os materiais passaram por procedimentos laboratoriais. Primeiro, as rochas foram submetidas à liofilização, técnica que remove a água por meio do congelamento e da secagem. Depois, foram trituradas para permitir a realização das análises.
O que fez as rochas pegarem fogo?
Os cientistas identificaram que as duas amostras que entraram em combustão eram compostas principalmente por marcassita, um mineral formado por ferro e enxofre.
O material apresentava cristais muito pequenos, originados da transformação de outro mineral, chamado pirrotita. Segundo os pesquisadores, essa transformação resultou em uma estrutura menos estável, que favoreceu as reações químicas responsáveis pelo aquecimento.
A oxidação dos sulfetos metálicos, processo em que esses compostos reagem com o oxigênio, libera calor. Nas condições observadas nas amostras, a reação foi intensa o suficiente para elevar a temperatura acima de 100°C e provocar a combustão espontânea.
Descoberta pode ajudar a prevenir acidentes na mineração submarina
O resultado da pesquisa chama a atenção para possíveis riscos envolvidos na exploração de recursos minerais no fundo do mar. Etapas como secagem, trituração e exposição ao ar podem desencadear reações químicas capazes de gerar calor excessivo e até incêndios durante o processamento das rochas.
O estudo também indica que a composição e a estrutura de determinados depósitos minerais submarinos atuais podem favorecer o aquecimento espontâneo em comparação com depósitos antigos de características semelhantes.
Compreender essas propriedades pode ajudar pesquisadores e empresas a identificar riscos e desenvolver medidas de segurança para futuras atividades de mineração em ambientes oceânicos.


