ÓRBITA DF

Mulheres transformam a gestão cultural no DF e enfrentam desafios para conquistar espaço

Lideranças femininas comandam projetos como o Cine Brasília, o Favela Sounds e o Capital Moto Week, mas ainda lidam com desigualdade salarial, preconceito e dificuldades de acesso a recursos.

Grupo Elas que Toquem explora arranjos, timbres e ritmos que refletem a experiência feminina no samba
Grupo Elas que Toquem explora arranjos, timbres e ritmos que refletem a experiência feminina no samba

A presença feminina na gestão cultural do Distrito Federal tem contribuído para ampliar oportunidades, diversificar projetos e fortalecer a produção artística local. À frente de festivais, grupos musicais e equipamentos públicos, mulheres assumem responsabilidades estratégicas e demonstram que a administração cultural vai muito além da organização de eventos.

Apesar dos avanços, a trajetória dessas profissionais ainda é marcada por obstáculos, como desigualdade salarial, preconceito de gênero e dificuldades para acessar financiamentos. Mesmo em um setor com participação expressiva de mulheres, a ocupação de cargos de liderança e o reconhecimento profissional continuam sendo desafios.

Entre os exemplos dessa atuação estão Ruskaya Zanini, responsável pela gestão do grupo de samba Elas que Toquem; Sara Rocha, que dirige o Cine Brasília; Amanda Bittar, uma das criadoras do festival Favela Sounds; e Juliana Jacinto, CEO do Capital Moto Week. Cada uma delas desenvolve estratégias próprias para consolidar projetos culturais e ampliar seu alcance.

Mulheres enfrentam desigualdade no mercado cultural

Dados do Sistema de Informações e Indicadores Culturais (SIIC), referentes ao período de 2011 a 2022, mostram que as mulheres representavam quase metade dos trabalhadores assalariados do setor cultural em 2022. Apesar dessa participação, a remuneração feminina era, em média, 23% inferior à dos homens.

A desigualdade também aparece na distribuição das atividades profissionais. Mulheres estão mais presentes em áreas como formação, literatura e artes visuais, enquanto os homens predominam em segmentos audiovisuais e funções técnicas de bastidores.

As diferenças salariais são ainda mais acentuadas quando se considera a raça. Dados citados pelo Observatório Itaú Cultural indicam que mulheres pretas recebem cerca de 70% menos do que homens brancos na economia criativa.

Ruskaya Zanini aposta na identidade feminina no samba

Desde a criação do grupo Elas que Toquem, em 2020, Ruskaya Zanini enfrenta desafios para consolidar um projeto musical formado exclusivamente por mulheres. Segundo ela, a banda precisou lidar com desconfiança e comparações frequentes com grupos masculinos.

Para fortalecer a identidade do conjunto, a estratégia foi investir em arranjos, timbres e ritmos que representassem a experiência feminina no samba, sem reproduzir modelos de outros grupos.

Além de participar da definição do repertório, Ruskaya representa a banda em entrevistas, negocia contratos e contribui para a organização das apresentações.

Para a gestora, o preconceito ainda exige esforço adicional para conquistar espaço no mercado musical, mas não impede que mulheres desenvolvam uma linguagem artística própria e construam suas trajetórias.

Ruskaya Zanini - Foto> Brenno Esaki
Ruskaya Zanini

Sara Rocha fortalece o papel do Cine Brasília

À frente do Cine Brasília, Sara Rocha concilia curadoria, administração e coordenação de equipes em um dos espaços culturais mais tradicionais da capital federal.

O cinema recebe mais de 100 mil espectadores por ano e mantém uma programação que inclui produções brasileiras e internacionais, sessões infantis, projetos educativos e mostras cinematográficas. O espaço também abriga o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, que completou 60 anos em 2025.

Além das atividades na sede, iniciativas como o Cine Expansão levam sessões a outras regiões administrativas, contribuindo para ampliar o acesso da população à produção audiovisual.

Sara destaca que ocupar uma posição de liderança sendo mulher exige esforço adicional para conquistar respeito e reconhecimento. Ainda assim, considera gratificante acompanhar a movimentação do público e a consolidação do cinema como referência cultural na cidade.

Sara Rocha
Sara Rocha

Favela Sounds leva a produção brasileira ao exterior

Criado por Amanda Bittar e Guilherme Tavares, o Favela Sounds surgiu a partir de uma iniciativa desenvolvida na Universidade de Brasília (UnB), em 2012. A primeira edição do festival foi realizada em 2016, e o projeto ganhou projeção nacional e internacional ao longo dos anos.

Em 2024, o evento levou artistas brasileiros ao festival Nyege Nyege, realizado em Jinja, Uganda, em uma iniciativa que destacou a diversidade da produção musical do país.

Formada em comunicação e com MBA em gestão administrativa, Amanda é responsável pela direção geral e artística do festival, além de atuar nas áreas de comunicação, finanças e planejamento estratégico.

Segundo ela, a formação acadêmica contribuiu para desenvolver uma visão integrada da produção cultural, permitindo conciliar a criação artística com a gestão administrativa do projeto.

Mesmo ocupando a direção-geral, Amanda relata situações em que interlocutores se dirigem exclusivamente ao sócio homem, ignorando sua posição de liderança. O episódio, segundo ela, demonstra como o preconceito de gênero ainda interfere no reconhecimento profissional das mulheres.

Amanda Bittar
Amanda Bittar

Administração como ferramenta para a gestão cultural

A formação em administração também é apontada como um diferencial por Juliana Solidade, integrante da Comissão Especial ADM Mulher. A iniciativa trabalha para ampliar a participação feminina na profissão e promover discussões sobre valorização, capacitação e presença das mulheres em cargos de liderança.

Para Solidade, os conhecimentos de planejamento, organização, direção e controle podem ser aplicados tanto à gestão de empresas quanto à condução de projetos culturais.

Ela defende que o fortalecimento da presença feminina depende de oportunidades de qualificação e de ambientes profissionais que reconheçam a competência das mulheres.

Juliana Solidade
Juliana Solidade

Juliana Jacinto amplia a presença feminina no Capital Moto Week

CEO do Capital Moto Week, Juliana Jacinto utiliza sua formação em administração para coordenar um dos principais eventos de motociclistas da América Latina.

Desde 2009, ela enfrenta o desafio de atuar em um segmento historicamente dominado por homens. Nas primeiras edições do festival, segundo a executiva, aproximadamente 98% do público era masculino.

Para mudar esse cenário, Juliana criou o Lady Bikers, iniciativa que reúne shows e palestras sobre bem-estar e empreendedorismo feminino. A proposta é tornar o evento mais acolhedor e incentivar a participação de mulheres.

Na gestão do festival, ela também adotou, ao lado do sócio Pedro Franco, um modelo de divisão de responsabilidades, no qual cada um tem a decisão final sobre as áreas sob sua supervisão.

A estratégia busca dar clareza à tomada de decisões e fortalecer a autonomia de ambos na administração do evento.

Juliana Jacinto
Juliana Jacinto

Políticas públicas são essenciais para reduzir desigualdades

Para Viviane Pinto, fundadora da plataforma Lab Criação, o fortalecimento da presença feminina na economia criativa depende de medidas concretas para enfrentar problemas estruturais do setor.

Entre os principais obstáculos estão a instabilidade financeira, a informalidade, a precarização das relações de trabalho, as diferenças salariais e a dificuldade de acesso a fontes de financiamento.

A especialista defende políticas públicas, programas e projetos que ofereçam condições adequadas de trabalho e oportunidades de desenvolvimento profissional para as mulheres.

No setor cultural, ela considera fundamental ampliar o acesso a recursos financeiros específicos para viabilizar produções artísticas lideradas por mulheres.

As experiências de gestoras do Distrito Federal mostram que a participação feminina já influencia diferentes áreas da cultura, da música ao cinema e aos grandes festivais. Para que esses avanços se consolidem, porém, o reconhecimento profissional precisa ser acompanhado de medidas que reduzam desigualdades e ampliem as oportunidades de liderança.

Viviane Pinto
Viviane Pinto

Fotos: Breno Esaki; Hugo Barreto; Luís Nova; Vinícius Schmidt.

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