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Quando os desastres expõem o que preferimos não enxergar

Tremores, eventos climáticos extremos e a possibilidade de um novo El Niño reforçam a necessidade de repensar prevenção, infraestrutura e a forma como as cidades convivem com os riscos

Foto: Divulgação
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Há uma contradição na maneira como lidamos com os desastres. Passamos boa parte do tempo tentando prever o que vem pela frente, organizando rotinas, construindo cidades, criando tecnologias e estabelecendo planos para os próximos anos. Ainda assim, basta um tremor mais forte, uma chuva fora do padrão ou uma longa estiagem para perceber que nem tudo está sob nosso comando.

Talvez seja justamente essa a principal lição deixada por cada desastre: a natureza não segue o calendário das autoridades, os interesses econômicos ou os ciclos eleitorais.

Os terremotos registrados recentemente em diferentes pontos da América Latina chamam atenção não apenas pela força dos abalos, mas pelo que revelam sobre a relação entre população, território e prevenção. Um tremor pode durar poucos segundos. As consequências, no entanto, podem permanecer por meses ou até anos.

E não é preciso estar diante de um terremoto de grande magnitude para que uma cidade seja afetada.

Quando um abalo atinge uma região densamente povoada, entram em cena questões que vão muito além da geologia. A qualidade das construções, a condição das vias, a capacidade dos hospitais, os sistemas de comunicação e a preparação das equipes de emergência podem determinar o tamanho do impacto.

É aí que o desastre deixa de ser apenas um fenômeno natural. A mesma lógica aparece quando falamos de eventos climáticos extremos.

Uma chuva intensa não explica sozinha uma enchente devastadora. É preciso olhar para o território ocupado, para a drenagem, para a preservação de áreas naturais, para a existência de moradias em locais vulneráveis e para a capacidade do poder público de alertar a população.

Uma seca também não começa e termina na ausência de chuva. Seus efeitos alcançam reservatórios, produção agrícola, geração de energia, preços dos alimentos e abastecimento das cidades.

A natureza produz o evento. As condições encontradas no caminho ajudam a definir o tamanho da consequência.

Essa diferença é importante porque, muitas vezes, o debate público começa e termina na intensidade do fenômeno. Fala-se da quantidade de chuva, da velocidade do vento, da magnitude do terremoto ou da temperatura registrada.

Mas existe outra medida que deveria receber a mesma atenção: o quanto estávamos preparados.

O risco não é igual para todos

Um desastre atinge territórios, mas também expõe desigualdades.

Duas famílias podem passar pela mesma enchente e enfrentar consequências completamente diferentes. Uma pode ter condições de deixar a área, procurar outro lugar e recuperar os prejuízos. A outra pode perder a única casa que possui e depender de assistência pública para recomeçar.

O mesmo vale para uma onda de calor, uma seca ou um terremoto. Quem vive em uma construção segura, tem acesso a serviços de saúde e dispõe de recursos para lidar com uma emergência parte de uma situação diferente daquela enfrentada por quem mora em uma área de risco ou depende de uma infraestrutura que já apresenta problemas no cotidiano.

Por isso, prevenção também é uma discussão sobre desigualdade. Não basta criar mecanismos para responder ao desastre depois que ele acontece. É preciso reduzir a quantidade de pessoas expostas antes que a emergência apareça.

O El Niño amplia a preocupação

A possibilidade de um novo El Niño acrescenta outro elemento a esse cenário.

O fenômeno, associado ao aquecimento anormal das águas do Pacífico, pode alterar padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do planeta. Seus efeitos não ficam restritos ao oceano ou aos mapas meteorológicos.

Dependendo de sua intensidade e duração, podem aparecer na agricultura, no abastecimento de água, na geração de energia e nos preços dos alimentos.

É um lembrete de que os fenômenos naturais estão conectados a praticamente todas as áreas da vida.

Uma alteração no clima pode atingir o campo. O impacto na produção pode chegar ao supermercado. A redução dos reservatórios pode pressionar a geração de energia. Uma onda de calor pode elevar o consumo de eletricidade e aumentar os riscos para a saúde.

O assunto, portanto, não deveria ser tratado apenas como uma questão ambiental, é também econômico, social e urbano.

Não confundir os fenômenos

É importante, entretanto, não colocar eventos diferentes dentro da mesma explicação. Terremotos estão relacionados à dinâmica geológica do planeta. El Niño é um fenômeno climático. Um não provoca o outro.

Essa distinção não diminui a importância de nenhum deles. Pelo contrário. Compreender as causas é parte da preparação.

O problema começa quando informações científicas são simplificadas a ponto de produzir conclusões erradas. Em momentos de medo ou incerteza, explicações fáceis costumam circular com mais velocidade.

Por isso, informação de qualidade também faz parte da prevenção.

Uma população que sabe reconhecer um alerta, entende os riscos da região onde mora e conhece os procedimentos em uma emergência tem mais condições de reagir adequadamente.

Prevenir custa menos que reconstruir

Há uma conta que raramente aparece com a mesma força depois de uma tragédia: quanto teria custado evitar parte daqueles danos?

Investir em drenagem, fiscalização, planejamento urbano, reforço de estruturas, sistemas de alerta, treinamento e equipamentos de emergência pode parecer caro quando comparado ao orçamento de um único ano.

Depois de uma tragédia, porém, os custos se multiplicam.

Casas precisam ser reconstruídas, estradas são refeitas. hospitais precisam ser recuperados, empresas deixam de funcionar, famílias perdem renda, crianças ficam sem aulas, serviços públicos são interrompidos.

Além do prejuízo financeiro, existe aquilo que não cabe em uma planilha: vidas perdidas, famílias separadas, deslocamentos forçados e anos necessários para recuperar uma rotina. Por isso, prevenção não deveria ser tratada como gasto secundário.

É uma escolha sobre quanto uma sociedade está disposta a perder quando o próximo evento acontecer.

As cidades precisam aprender com o território

Boa parte dos problemas começa muito antes do desastre. Uma cidade que cresce sem planejamento, ocupa áreas de risco, impermeabiliza excessivamente o solo ou permite construções sem fiscalização aumenta sua própria exposição.

Não há tecnologia capaz de compensar indefinidamente escolhas urbanas ruins. O mesmo vale para regiões que dependem de poucos reservatórios, redes elétricas frágeis ou estradas que não suportam eventos extremos.

Planejar uma cidade é também pensar naquilo que pode dar errado.

Essa não é uma tarefa simples. Exige decisões que muitas vezes produzem resultados apenas anos depois, enquanto a política costuma trabalhar com prazos muito mais curtos. Mas o clima e a geologia não obedecem ao calendário eleitoral.

A natureza não precisa ser previsível para que sejamos preparados

Talvez seja esse o ponto mais incômodo. Não vamos impedir todos os terremotos. Não vamos eliminar completamente enchentes, secas ou ondas de calor. Também não temos como controlar fenômenos climáticos de escala planetária.

O que está ao nosso alcance é reduzir a vulnerabilidade, construir melhor, fiscalizar, planejar, preservar áreas importantes, melhorar sistemas de alerta, preparar hospitais. Treinar equipes, informar a população e, principalmente, aprender com cada ocorrência.

Um desastre não deveria ser apenas uma notícia que dura alguns dias. Deveria deixar dados, mudanças de procedimento e decisões capazes de reduzir o impacto do próximo.

Quando as águas baixam e os tremores cessam, a urgência diminui. É justamente nesse momento que começa uma parte menos visível, mas essencial do trabalho: entender o que aconteceu e corrigir aquilo que poderia ter sido diferente.

Talvez não tenhamos controle sobre quando a Terra vai tremer, quando uma tempestade vai se intensificar ou quais efeitos um novo El Niño produzirá.

Mas temos alguma escolha sobre onde construímos, como construímos e quão preparados estaremos. A natureza continuará impondo seus limites. O que não deveria continuar igual é a nossa capacidade de ignorá-los até que seja tarde demais.

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